- Pai, pai, já peguei as chaves. Vamos, vamos!
Nunca pensei que assim seriam os momentos que antecederiam o primeiro dia de aula do meu filho. Eu não me lembro de estar tão ansioso assim, como ele está.
- Vamos Pedro, sua mãe já arrumou sua bolsa.
- Já vou papai, vai ligando o carro...
Meu filho caminhava em direção ao meu carro, puxando sua mochila de rodinhas com vários chaveiros de super-heróis que batiam entre si e faziam um som semelhante ao da própria mochila. Antes de ir, Pedro, de apenas sete anos, ainda pegou o celular e começou a jogar aquele jogo de pássaros "irritados". Se não fosse a função básica do aparelho, eu não deixaria que ele pegasse, pelo mesmo motivo que não pegou o game-boy e o vídeo-game portátil. Queria eu que meu filho não possuísse todos esses "brinquedos".
Saímos de casa e já nos deparamos com todos aqueles carros na rua.
- Sabe filho, quando eu tinha a tua idade e até os meus 15 anos, pude desfrutar do prazer de brincar nesta rua. Jogava bolinha de gude, brincava de esconde-esconde, jogava futebol...
- Gol!
- Aonde? Olhei para os lados da rua procurando crianças com uma bola, o que chegava a ser irônico, pois sabia que ali não havia lugara para jogar. Antes que uma resposta mais óbvia fosse elaborada pelo meu cérebro, ele respondeu:
- Aqui pai, o Vitinho me passou esse jogo de futebol também, é muito legal. Mas continua falando. Por que eu não posso brincar de futebol com você na rua? O que aconteceu?
- Foi quando o bairro começou a crescer e vieram os prédios, carros e tudo mais. Tá vendo? Não dá para colocar a bola no chão sem que ela possa ser furada.
- Mas você vai me levar no parque, não vai? Quero saber como joga bola de verdade.
- Vou, mas só no sábado, agora não temos tempo.
Andando mais algumas quadras chegamos à escola. Muitas crianças ali estavam e quase todas seguravam o braço do pai ou da mãe com uma mão e algum aparelho eletrônico com a outra. Como posso eu exigir que meu filho não tenha essas coisas se todas as outras crianças têm? Fora isso, todo dia passa alguma passa alguma propaganda na TV sobre o assunto. Será mesmo que faz bem para o meu filho ter contato com tudo isso tão jovem?
- Pai, pai, vamos! Por que você não abriu a porta do carro ainda? Eu quero ver logo como é escola.
- Espera filho, já vamos. Deixa eu falar uma coisa para você antes.
- O quê?
- Você promete que vai desligar o celular na sala?
- Mas não é para mamãe ligar?
- Ela liga para escola, caso precise. Promete?
- Sim.
- E se tiver educação física, ou algo do tipo, vê se joga queimada, vôlei ou algum outro esporte. Eu e a mamãe vimos que o seu primo Vítor está na mesma sala que ti. Aí você brinca com ele, mas nada de games, ok?
- Sim papai, prometo para ti.
E assim deixei meu filho, naquela multidão de crianças que nascem já nessa geração tecnológica. E espero que ele consiga conciliar todos esses aparelhos com os estudos e diversão. Vou ajudá-lo, mas não vou devolver o celular que ele esqueceu em cima do banco. Não hoje.
Rafa, adorei essa cronica! Tao simples, mas diz tanta coisa! Escreva muitas outras :D
ResponderExcluirBonita, Rafa. A mudança de foco - o narrador é o pai e não o filho - é curiosa e surpreendente.
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